| Êxtase, euforia, apreensão, dias inquietos, noites insones... É raro
encontrar alguém que não saiba o que é uma paixão . O envolvimento é tão forte e
invasivo, que pode levar a pessoa a ignorar suas obrigações cotidianas, além de
induzi-la a fazer sacrifícios e a tomar decisões radicais. Por essa razão, e por
ter no ardor sexual um forte componente, ela sempre foi considerada perigosa do
ponto de vista da ordem e do dever social.
Na maior parte das culturas nunca se aceitou que o casamento fosse
conseqüência de um amor apaixonado, embora o amor fatal seja o mais antigo dos
temas nos versos e lendas. O francês Denis de Rougemont, grande estudioso do
amor no Ocidente, afirma que raramente os poetas cantam o amor feliz, harmonioso
e tranqüilo. E que o romance passa a existir unicamente onde o amor é fatal,
proscrito, condenado...e não como a satisfação do amor. As provas, os
obstáculos, as proibições, são as condições da paixão. Afinal, paixão significa
sofrimento. Por que, então, as pessoas a valorizam?
O desejo e o sofrimento fazem com que todos se sintam vivos, proporcionando
um frisson, e muitas surpresas. Necessita-se do outro, não como ele é no real,
mas como instrumento que torna possível viver uma paixão ardente. Somos
envolvidos por um sentimento tão intenso que por ele ansiamos, apesar de nos
fazer sofrer. Os apaixonados não precisam da presença do outro, mas da sua
ausência. Contudo, a maioria reconhece que a paixão acaba logo. Se é assim, por
que nos apaixonamos e quanto tempo, afinal, dura uma paixão?
Vários estudos já mostraram que esse violento distúrbio emocional é
desencadeado por algo físico que acontece no cérebro. Talvez aí se explique por
que as pessoas apaixonadas são capazes de ficar acordadas a noite inteira,
conversando ou fazendo sexo. Mas existem alguns pré-requisitos: certo
distanciamento e mistério são essenciais para a paixão; em geral, as pessoas não
se apaixonam por alguém que conhecem bem.
Segundo uma pesquisa sobre a natureza do amor e da paixão, feita recentemente
nos Estados Unidos, em que foram entrevistadas 5 mil pessoas em 37 culturas, há
uma série de evidências de que essa exaltação seja criada por um coquetel de
substâncias químicas cerebrais e deflagrada pelo condicionamento cultural. Os
pesquisadores observaram que esse tipo de emoção não dura mais que dois anos e
meio, quando a pessoa começa a voltar a um estado mental relaxado. Em meados da
década de 60 a psicóloga americana Doroty Tennov já havia chegado à conclusão de
que a duração média de uma paixão é de 18 meses a três anos. Suspeita-se que seu
término também se deva à fisiologia cerebral; o cérebro não suportaria manter
eternamente essa excitação.
Mesmo durando pouco, a paixão sempre foi sentida como uma doença da alma que,
além de limitar a liberdade individual, pode levar ao assassinato ou ao
suicídio. Mas a paixão está em via de extinção. As mentalidades estão mudando e
a situação hoje é outra. A filósofa francesa Elizabeth Badinter acredita que
agora homens e mulheres sonham com outra coisa diferente dos dilaceramentos. Se
as promessas de sofrimento devem vencer os prazeres, preferimos nos desligar.
Além disso, a permissividade tirou da paixão seu motor mais poderoso: a
proibição. "Ao admitir que o coração não está mais fora da lei, mas acima dela,
pregou-se uma peça no desejo", diz ela. Então, mesmo que ainda quiséssemos, não
poderíamos mais. As condições da paixão não estão mais reunidas, tanto do ponto
de vista social quanto psicológico.
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